domingo, 1 de julho de 2012

Adeus, primeiro amor

O céu realmente estava claro, como diziam. Não conseguiam, porém, premeditar o que precipitaria este claro. Era noite e haviam nuvens pesadas, carregadas há tempos de um tempo em que ele na verdade não conseguia determinar. Estavam carregadas, claramente carregadas, de uma impureza e um tédio que sempre batia à sua porta, à calçada da sua rua, na ponta dos seus pés, no rosto dela. Exceto quando estava ali, o detalhe dos pássaros do vestido dela sobre o azul-céu da camisa dele. Ambas antigas. Ambas jogadas com rapidez e carinho ao chão. Se completariam ali, esquecidas num vácuo de amor e um intervalo de caricias desmedidas.

Ela era a primeira. Muito menina, pouco atriz (diferente daquelas atrizes de antes, duas gotas de suor na testa e uma nota no cós da calça). Seu pai, é claro. Dezesseis, tempo de arranjar mulheres de verdade. Mas não são elas cacos de vidro, pai, são de plástico, ele explicava. Apesar de nada ter adiado a vontade do velho arcaico, Bernardo não sentia nada além daquele impulso quase que vital de homem macho estritamente animal. Instinto de pele a pele, quase cachorros perdidos numa noite pútrida.

Não amava, nunca havia amado. Pensava ser o amor uma coleção de fotos que posteriormente seriam queimadas e jogadas fora, aos pedaços. Para que tira-las, então? Então que avistou dois pés brancos descalços sobre um asfalto possivelmente escaldante. E ouviu um flash. O vulto branco com uma câmera vermelha às mãos. Era isso, o amor? Não gostava nada daquelas câmeras instantâneas e ali estava uma à sua frente. E era incrivelmente linda. E surpreendentemente sua. Na testa não havia mais somente duas gotas de suor, havia dois beijos. Havia vestidos estampados com pássaros amarelos voando alto em direção a camisas azuis. Era o seu lugar, pensava, aqueles pássaros deveriam morar ali, falava sobre a pele macia de menina que permanecia ali. E moraram, moraram por muito tempo, e Bernardo não conseguia contar dias que fossem mais felizes do que aqueles.

Estava ali, o contraponto da atriz, o caco de vidro ainda inteiro e brilhante e verdadeiro como o inferno ou como o branco desse céu cheio de nuvens ou como o som do telefone que cortara o ar. Era ela, cortara o ar, o seu ar. Sua imagem, sua câmera vermelha e seu céu se distanciavam das vistas de Bernardo. Sentia seus cacos agora completamente estilhaçados, tanto que cortavam sua pele em mil esguichos de sangue vivo e vermelho. “Adeus, primeiro amor” ela disse. “Adeus, primeiro amor” ele murmurou. Com os pés sangrando, queimou aquelas fotos. Perto dali, as nuvens descarrevagam-se num alivio indescritível. Então começava a chover.