quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Incômodo

Frio                             Calor
Tanto                           Tanto
Faz                              Fez

                Fiz
              Tanto
              Doer

        E dormir não fui. 

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Papel manteiga

Sempre dói mais onde menos deveria
E em extensões, achar seu controle
Abarcar com os olhos o que os olhos não vêem
E por mesmo não ver, tornar a terra pouca
Fazer da pedra macia areia
Em que acolho, recolho, descanso os pés
E me digo forte
Não por sustentar grandes problemas
Mas por maquinar grandes artifícios
Para deixá-los de lado, e esconde-los
Por debaixo dessas gotas poucas
Sobre a mesa de madeira
Que não secam, ficam ali, estáticas
Perduram e me fitam
Me encaram me lembrando
Que para elas, justo à elas
Não consigo por panos sobre, nem ao redor
Conservo-as ali como quem precisa
De um rádio sintonizado num fim de tarde
Ou de um cão aconchegado no tapete
Com uma presença que mais parece ausência
De tão estável e duradoura e eterna e confortável
Por mais que as extremidades machuquem
Mais do que o que escondo por ser imenso e torno opaco
Porque reforço o traço só no que me é banal.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Parapeito II

Te digo que tenho força o bastante para abrir essa maçaneta e sem pensar duas vezes por meu corpo por trás dessa porta por trás de onde ainda me protejo mas a força maior que faço é a de mantê-la fechada de manter-me aquecida e segura reduzida a esse pedaço de terra que agarrei e pintei com a cor de tudo o mais que lembra à essa cadeira à essa mochila à essa calça a esse céu a esse tudo em que não enxergue implícitos e assustadores os teus olhos marrons como que me induzindo a abrir essa porta e dizendo vem não vai doer vem toma banho nessas lembranças que deixei para ti que te alivia que te torna útil que te faz sentir viva vem e me olha e olha essas coisas que todos menos tu deixaram para trás mas não eu me recuso eu não sou tua jarra de água suscetível a um volume qualquer que queiras eu me abstenho até de olhar para essa porta de madeira em que as minhas mãos aportam porque ela é marrom e nela vejo a minha febre nessas tuas pupilas grandes e eu preciso fugir e olhar para algo mais azul e branco e cinza que seja mas deixar o marrom que me persegue eu tento eu acho eu bato a porta e tranco e engulo a chave e vou apressada para o parapeito da janela lá tenho paz lá tenho silencio lá olho para o azul e espero espero espero de novo de outro dou três passos para trás estou errada encurralada por duas enormes e persistentes manchas de cor na minha cabeça levo as pernas ao chão me acolho me invento em mim fecho os olhos cubro a tez e tento tento tento pensar em qualquer coisa que não seja em cores não consigo devolvo meus passos para as lajotas e estou finalmente ali meneando para fora e livre e quase e então eu pinto

Tudo

De

Vermelho.

Parapeito

Mas se às vezes te descubro alheio e acho no teu silêncio a falta que habita o meu, dou três passos atrás e vagueio sobre o cômodo de estar errada, porque no teu silencio não há nada submerso além da dimensão da palavra que o define: si-len-cio, e a janela ameaça fechar-se.