A cidade enterra seus mortos
Flores mortas renovadas uma vez por ano
Há um dia atrás, sem engano
Nenhuma vida brotada ali
Nessas terras férteis-imóveis
Onde deita a vida e levanta-se a morte
Á procura dos que ainda hão de vir
A morte anda em busca, sonolenta
Por cada canto dessa cinzenta
Cidade-ba(i)rro
Ainda que possa ir muito longe
Do seu impeto não se esconde
Logo acha o seu destinatário
Deitada na calçada
Uma mulher, descabelada
Um dos seios á mostra
Por ali havia, sangrando,
Um terço de carne exposta
Era um rosto endurecido
Tão imóvel quanto a residência da morte
Que estava certa, ela mesma
Que debaixo daquele poste
A alma desencarnada escapava
Pelos poros da própria sorte
A morte se aproximou, em um só movimento
Cabeça colada ao ventre daquela mulher-tormento
Naquele mesmo momento, se esquivou da resposta
Aquela alma não era dela, percebeu
Levantava-se viva, mas deitava-se morta
Aquela alma era de um ciclo que retrocedeu
Era difícil entender o porquê
A cidade enterra seus mortos
Mas esquece daqueles
Que não morrem
Nem são deixados viver
Aqueles que vagam
Em suas lápides humanas
Ambulantes
Esperando que algum qualquer passante
Pare
Faça uma oração
Por eles chore
Sinta a sua dor
E deposite
Ali mesmo
Uma flor