Mas não era tão simples, tu vês. Se mãos de areia tocaram
o meu dorso para em seguida desmancharem-se tristemente em outros. Se nenhum pé
é enraizado, se todos correm de um lado pro outro, tênis desamarrados e apressados,
sandálias sujas da sujeira de onde passam. Enxergo a minha ali também, um
risco, um ponto que quase não me diz nada. Não me diz nada e não diz nada pra
ninguém. Olhei pra tantos vidros trincados e riscos de luz que quis chamar
passageiro a tudo o que se movia ao meu redor. Mas eu não quis essa banalidade
que é peso extra de viagem. E ela veio, tornando opaco qualquer rastro que me
tomasse o rosto nas mãos e dissesse “não, não é tudo assim tão rasteiramente brutal”. Tu
sabes, estavam me afundando, e eu não queria. Não queria esse amontoado de superfícies
que me entregavam sem opção de escolha. Não quero me eximir da culpa, dizer que tornar a minha pele rasa não era a minha intenção. Mas era um jogo, entende, de um lado o sempre indiferente e de outro a remota chance de adensar-se. E nesse mesmo meio, eu te vi, e só
em ti senti que, se eu pulasse, poderia não dar pé, mas ao menos não quebraria
a cabeça e riria ou choraria da falta de água pra me flutuar. Eu não tenho
certeza se a tua água me flutua ou afunda. Me jogo em ti e sinto que se
deixasse o impulso solto às regras de sobrevivência, afundaria, afundaria,
conheceria o mais distante piso no teu espaço, o milímetro de água menos visível,
menos sensível, e dali subiria satisfeita, pra flutuar em ti, deixar meus
braços divagando na tua fluidez, sentir o contato da minha pele com a tua água
gelada – real, suja, desperta. E ouvi o teu alerta, não foi isso? A tua luz
vermelha de fala ainda pouco estridente. Não cai, não te afunda, vais te
afogar. Mas eu insisti. Não quis escadas para mediar meus pés com o teu
liquido. Entrei e ali permaneço, te engolindo. Engulo a tua água sob lágrimas
ou não. É tudo que podes me oferecer, não é? O teu simples
existir-e-estar-disposto, em confronto com o meu complexo
querer-além-do-que-me-dás. Eu sequer levanto a cabeça intentando vencer isso.
Eu só engulo a tua água, pra ver se nessa falta de ti, me percebes, pra ver se
te percebes dentro de mim. E será em vão? Será que nem se te olhares
completamente seco, me vês no fundo de ti tentando te-e-me respirar?