domingo, 27 de maio de 2012

Andava batendo calcanhares no céu

Escrito em 03/05/12

Andava batendo calcanhares no céu.

Porque ali doía mais e mais aliviava. Melhor que batê-los no chão, na estante de madeira envelhecida, ou nos rostos que de olhos âmbares e raivosos o olhavam tentando incessantes tirar-lhe das entranhas algo minimamente útil para tudo o que, desde as sandálias vinte e dois e os calcanhares intocados, lhe fora programado, encaixado, esquadrinhado.

Andava batendo calcanhares no céu.

Porque as nuvens daquele azul amorteciam a queda, o baque, absorviam o sangue da pele que, sobre o contato macio daquele mar ao contrário, mal arranhavam. Sentia o leve estalo, sentia-se despertar, mas não era preciso abrir os olhos. Ao contrário, fechava-os.

Andava batendo calcanhares no céu.

Pelo prazer de vê-los calejar a cada vez que estiveram ali. Pelo mesmo prazer de enganar-se com a textura imóvel dos pedaços de conforto pálido que já eram conhecidos seu, afinal, era mesmo conhecido pela invejável mania de pisar em pedras como se pisasse em flores.

E de bater, insistente, seus calcanhares no céu.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Leite, suor e lágrimas

Leite para o que seria doce e leve
A partir dali
Olhos desonestos
Numa desonestidade consentida
E financiada
E tudo bem
Céus claros e abraços confortáveis

Suor para o que não evitava o corpo
Numa convulsão, contraia-se
E nos levava a qualquer canto
Tatear mãos, pele, boca
E tudo o mais
Juntar corpos, até que não houvesse
Mais nenhum espaço
Para juntar
Porque estava tudo
Perfeitamente
Encaixado

Lágrimas para o que vem sempre e sempre vem depois
De todo leite e suor
De todo o muito gasto
E intensamente desejado
Lágrimas para diluir o leite
Lágrimas para disfarçar o suor
Para que assim torne-se tudo
Lágrima
Que chega
Enche os olhos
Cai, em plenitude
E finalmente
Seca.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Invisibilidades

Escrito em 03/04/2012

Que se dane o fio de vida permanente na ambulância que passa nessa esquina a qual meus olhos já estão cansados de ver e enxergar e tentar transferir-se para o ser de absolutamente tudo o que se move e o que não se move na estrada que compreende estes poços fundos de pensamentos meus emaranhados com os teus se é que os teus não se contêm somente a ti e a essa esquina de flores pisadas chicletes grudados copos amassados que fazem do asfalto seco solitário e não tão mais após a chuva que o umedece em um quase suspiro quase alivio como um ato de companheirismo que de uma forma ou de outra junta estes resquícios de cidades de pessoas de tempos e vidas gastos ainda mais para que logo sejam um só que me lembrem dessa esquina dessa ambulância dessas pessoas desse tempo que passou por mim.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Por trás da casca

Escrito em 12/04/12

Porque por trás desses devaneios todos e ansias e esperas onde estive sempre presa, foste tu o único a tocar meu braço. E leve e intenso e "infinito enquanto dure" e tão presente e aconchegante e me permites sentir que estás aqui, tangível e meu. Me deste o arbítrio e me vestes com ele a cada dia. Me forneceste o controle e não ouso dizer que não me assusta o peso da decisão de todas as possibilidades. P-o-s-s-i-b-i-l-i-d-a-d-e-s, me soletras para que o meu cérebro processe bem.
Tornas o projetável possível, deixas que a luz de uma parte inabitável (e imprescindível) da vida se acenda, e eu não só a enxergo, eu a sinto, eu a vivo.
Muito obrigada por, com cuidado, depir-me dessa casca quase impenetrável de vidas não vividas, de aspirações descuidadas que, ao teu lado, vou deixando pra trás.


sábado, 19 de maio de 2012

Aula I - Geometria Analítica

O fio elétrico se mexe insistente, mas aqui dentro nenhum movimento brusco. Talvez quiséssemos nós estar nos debatendo contra a parede, como esse fio elétrico pendurado na janela que parece protestar à nossa inércia.

Continuamos inertes, seja o que for que motive as nossas vísceras. Um objetivo em comum nem sempre tão objetivo. Acho que muitas vezes nem vem de dentro de nós. Mas está ali, como numa feira de maçãs aparentemente podres e maduras a uma escolha aparentemente nossa.

Entre e foco e desistência, nos distraímos. Com muito ou quase nada.

Existe vida além do eterno apontar de lápis e canetas que acabam e cadernos cheios de reproduções. O que em tese libertaria, aprisiona cruelmente. Mas que besteira, que besteira, que adianta pensar nisso? Não chego a nada além da distração que enxergo claramente em uns, em outros nem tanto.

Aqui ao lado, uma abaixa a cabeça, molha os lábios, olha pra cima. Talvez esteja pensando na revolução do sistema de ensino. Talvez esteja pensando nas tão restritas maneiras de resolver os problemas apresentados. Ou talvez esteja apenas pensando em flores.

Com certeza aqui atrás estão pensando em bombom, em pastel, em dinheiro. Sexo num ponto disfarçadamente latente nas cabeças da maioria presa aqui. Á frente, o vaivém de papéis e o impossível do inconsciênte que não aja nessas imensas moléculas de concentração, porque a sensação de ser emersa e coagida por algo terrivelmente maior e exterior à vontades alheias submete não só à mim que sou fio elétrico debatendo contra a parede, contra o chão, contra o quadro, enquanto recebo passivamente outra apostila.