Mas não era tão simples, tu vês. Se mãos de areia tocaram
o meu dorso para em seguida desmancharem-se tristemente em outros. Se nenhum pé
é enraizado, se todos correm de um lado pro outro, tênis desamarrados e apressados,
sandálias sujas da sujeira de onde passam. Enxergo a minha ali também, um
risco, um ponto que quase não me diz nada. Não me diz nada e não diz nada pra
ninguém. Olhei pra tantos vidros trincados e riscos de luz que quis chamar
passageiro a tudo o que se movia ao meu redor. Mas eu não quis essa banalidade
que é peso extra de viagem. E ela veio, tornando opaco qualquer rastro que me
tomasse o rosto nas mãos e dissesse “não, não é tudo assim tão rasteiramente brutal”. Tu
sabes, estavam me afundando, e eu não queria. Não queria esse amontoado de superfícies
que me entregavam sem opção de escolha. Não quero me eximir da culpa, dizer que tornar a minha pele rasa não era a minha intenção. Mas era um jogo, entende, de um lado o sempre indiferente e de outro a remota chance de adensar-se. E nesse mesmo meio, eu te vi, e só
em ti senti que, se eu pulasse, poderia não dar pé, mas ao menos não quebraria
a cabeça e riria ou choraria da falta de água pra me flutuar. Eu não tenho
certeza se a tua água me flutua ou afunda. Me jogo em ti e sinto que se
deixasse o impulso solto às regras de sobrevivência, afundaria, afundaria,
conheceria o mais distante piso no teu espaço, o milímetro de água menos visível,
menos sensível, e dali subiria satisfeita, pra flutuar em ti, deixar meus
braços divagando na tua fluidez, sentir o contato da minha pele com a tua água
gelada – real, suja, desperta. E ouvi o teu alerta, não foi isso? A tua luz
vermelha de fala ainda pouco estridente. Não cai, não te afunda, vais te
afogar. Mas eu insisti. Não quis escadas para mediar meus pés com o teu
liquido. Entrei e ali permaneço, te engolindo. Engulo a tua água sob lágrimas
ou não. É tudo que podes me oferecer, não é? O teu simples
existir-e-estar-disposto, em confronto com o meu complexo
querer-além-do-que-me-dás. Eu sequer levanto a cabeça intentando vencer isso.
Eu só engulo a tua água, pra ver se nessa falta de ti, me percebes, pra ver se
te percebes dentro de mim. E será em vão? Será que nem se te olhares
completamente seco, me vês no fundo de ti tentando te-e-me respirar?
quarta-feira, 4 de dezembro de 2013
segunda-feira, 19 de agosto de 2013
Escrito em 19/03/2013
Nessa chuva que fazia calos e deixava as pontas do pé de
Júlio úmidas e retraídas, ele pensava. Os sapatos secando atrás da geladeira
lhe conferiam um odor não muito agradável, mas já havia sentido aquilo ali
antes. Parecia um pouco com o que suas narinas aspiravam quando formava uma
ideia na sua cabeça e esperava, pacientemente, alguém compartilhar dela. E
nunca acontecia, nunca era como o previsto. Júlio andava por ali e dentro de si
sempre parecia que faltava algo. Externa e internamente, na verdade. O buraco
estava alí mais ou menos na direção do seu peito, corria pelo seu pescoço e
fazia notáveis marcas ao redor dos seus olhos. Olheiras, chamavam. Criava a
síntese da razão desses arroxeados bem do meio do rosto pálido, quebrando a sua
ordem facial. Cansaço, você sabe. Eu penso muito, você sabe. Pensar dói, você
sabe. Dói e desperta e esclarece (ou escurece) ainda mais. Depois rebate; ali
ao lado pessoas morrem de câncer, o próprio corpo se embriaga de células que
nascem e fazem morrer. Ali ao lado as pessoas morrem de câncer, aqui ao lado,
do meu lado. E elas estão sorrindo, e não tem motivos. Não sei, elas estão vivas,
menos do que eu e no entanto parecem mais. Então, aqui deitado, me sinto um
idiota, porque eu crio essas olheiras. Eu não sofro, eu peço por isso. Tenho
vontade de enterrar a minha cabeça no travesseiro e pedir desculpas a deus ou a
alguém por esse descontentamento. Essa era a sua melhor antítese. E logo vem a
síntese, ele espera. Mas a síntese não vem, a sua natureza é extremista, Júlio
sabia. Ou se sentia mal e confortável no buraco que cavou aos moldes de si, ou
se sentia mal por sentir-se mal e por cavar um buraco para si quando ele mesmo
tinha tudo para emergir dele. Não era uma escolha tão justa, tão difícil. As
vezes pensava que sequer era uma escolha. Deixava, por hora, o sapato secar
atrás da geladeira e a janela aberta mesmo quando chovia, essas coisas que
ninguém desconfia que definam tanto alguém como o definiam.
Reter Restos
Ainda assim, tem tanta gente por aí soltando as suas minúcias pelo chão, que antes que caiam, eu as pego no ar, E desses detalhes eu tiro a parte que me cabe (talvez nem me caiba) e costuro em mim, devagar. Quem passa por mim, não passa alheio. Nada é dito em vão, nenhum olhar é perdido e as mãos não se movem ao acaso. Eu prendo em mim o que produzem, me delicio com tudo o que, na maioria das vezes, passa despercebido e então deixo livre para que possa voar sem rumo, pairando sobre janelas descobertas. É o que me resta, reter restos, e tudo bem.
terça-feira, 5 de março de 2013
Domingo
Mesmo que
comas esse pedaço de pão quente eu sei que as tuas mãos continuam geladas, e
você sabe que é domingo porque ecoando no fundo da tua cabeça há um brega antigo
que acompanha a tua fala lenta. A tua fala lenta acompanha o passear entre dois
lados do porteiro lá embaixo, e o brega ali não ecoa, mas pulsa. O porteiro
dança o brega e a tua voz e a tua voz dança o brega com o porteiro e o brega
embala o ar que passa ali entre os dois, então você sabe que é domingo.
Eu, diferente de você, vejo domingo na tua camisa desabotoada. Não posso olhar pra ti sentado aqui na minha frente sem perceber o movimento não feito que vestes. Você entra pela porta e eu sei, é domingo.
Tinha um velhinho também, que morava na frente de casa, e um dia ele me disse que domingo é à tardinha, quando começa a escurecer e os postes parecem carregar olhos marejados, que se acendem sem querer acender, tristes e cansados de tanto estarem ali, imóveis.
Bom, disso tudo eu posso dizer que eu não sei, mas sei que não tenho calendários, porque eu te pego pela tua mão gelada e suja de pão, vejo um brega sussurrando na tua cabeça movimentando levemente os passos do porteiro, olho a tua camisa desabotoada, te levo até a janela e te mostro os postes que começam a acender. É domingo.
Eu, diferente de você, vejo domingo na tua camisa desabotoada. Não posso olhar pra ti sentado aqui na minha frente sem perceber o movimento não feito que vestes. Você entra pela porta e eu sei, é domingo.
Tinha um velhinho também, que morava na frente de casa, e um dia ele me disse que domingo é à tardinha, quando começa a escurecer e os postes parecem carregar olhos marejados, que se acendem sem querer acender, tristes e cansados de tanto estarem ali, imóveis.
Bom, disso tudo eu posso dizer que eu não sei, mas sei que não tenho calendários, porque eu te pego pela tua mão gelada e suja de pão, vejo um brega sussurrando na tua cabeça movimentando levemente os passos do porteiro, olho a tua camisa desabotoada, te levo até a janela e te mostro os postes que começam a acender. É domingo.
terça-feira, 22 de janeiro de 2013
Sobre imobilidade
Escrito em 17/12/2012
O teu olhar fixo em qualquer objeto inanimado
Me sorris amarelo quando alcanço teus lábios
Mas não estás aqui, nunca estiveste
Não sinto a tua alma e isso me dói
Tua presença parece ausência e isso me dói
Teu sexo é calculado, medido
Num copo que inventaste para que nada extravase de ti
Num corpo que não sedes por completo
Em nada sedes, na verdade
E tenho sede de ti que me alimenta com doses cavalares de nada
O que pensas, meu amor
Quanto te fodo com cuidado
Ou com selvageria?
No que te aportas, meu amor
Quando escrevo pra ti e murmuras que te agrado
Quando eu sei que não entro em ti um milímetro?
Tu sobre a minha faca, sem cabeça, sem alma
Quem sabe o vermelho do teu sangue te faça reagir?
Escorre incessante, jorra, grita
E ainda assim continuas
Calada.
O teu olhar fixo em qualquer objeto inanimado
O meu olhar
fixo no teu corpo de aço
Que não
oxida frente aos meus toques
Por que
viemos até aqui? Sempre foste assim
Seguras a
tua xícara de café com o polegar
E te
debruças sobre algo que eu não sei o nome
Quero estar
através de ti, atravessar teus poros
Como esse pó
de arroz que passas displicentemente no teu rosto
E que te faz
parecer ainda mais imóvel
Teu olhar é
morno, temperatura ambiente num sol das seis da manhã
Tuas mãos
revertidas por uma pele finaMe sorris amarelo quando alcanço teus lábios
Mas não estás aqui, nunca estiveste
Não sinto a tua alma e isso me dói
Tua presença parece ausência e isso me dói
Teu sexo é calculado, medido
Num copo que inventaste para que nada extravase de ti
Num corpo que não sedes por completo
Em nada sedes, na verdade
E tenho sede de ti que me alimenta com doses cavalares de nada
O que pensas, meu amor
Quanto te fodo com cuidado
Ou com selvageria?
No que te aportas, meu amor
Quando escrevo pra ti e murmuras que te agrado
Quando eu sei que não entro em ti um milímetro?
Que imagens
formas por trás dos teus cabelos negros?
Pássaros sem
cabeça, paredes com almaTu sobre a minha faca, sem cabeça, sem alma
Quem sabe o vermelho do teu sangue te faça reagir?
Escorre incessante, jorra, grita
E ainda assim continuas
Calada.
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