quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Flores de um longo inverno

A cidade enterra seus mortos
Flores mortas renovadas uma vez por ano
Há um dia atrás, sem engano
Nenhuma vida brotada ali
Nessas terras férteis-imóveis
Onde deita a vida e levanta-se a morte
Á procura dos que ainda hão de vir

A morte anda em busca, sonolenta
Por cada canto dessa cinzenta
Cidade-ba(i)rro
Ainda que possa ir muito longe
Do seu impeto não se esconde
Logo acha o seu destinatário

Deitada na calçada
Uma mulher, descabelada
Um dos seios á mostra
Por ali havia, sangrando,
Um terço de carne exposta

Era um rosto endurecido
Tão imóvel quanto a residência da morte
Que estava certa, ela mesma
Que debaixo daquele poste
A alma desencarnada escapava
Pelos poros da própria sorte

A morte se aproximou, em um só movimento
Cabeça colada ao ventre daquela mulher-tormento
Naquele mesmo momento, se esquivou da resposta
Aquela alma não era dela, percebeu
Levantava-se viva, mas deitava-se morta
Aquela alma era de um ciclo que retrocedeu

Era difícil entender o porquê
A cidade enterra seus mortos
Mas esquece daqueles
Que não morrem
Nem são deixados viver

Aqueles que vagam
Em suas lápides humanas
Ambulantes
Esperando que algum qualquer passante
Pare
Faça uma oração
Por eles chore
Sinta a sua dor
E deposite
Ali mesmo
Uma flor

sábado, 24 de janeiro de 2015

Sol

Tu sempre me contaste de como gostavas do sol, do quanto te sentias energizado e abastecido por ele, do quanto desejavas drená-lo inteiramente. Eu sempre te contei que eu fechava as cortinas pro sol não invadir o meu quarto, o meu espaço fronteiriço entre a desistência e a perseverança. Sempre te contei que eu fechava as pálpebras pro sol não invadir os meus olhos, o meu espaço dúbio entre amar e sangrar, onde um verde mal capinado faz moradia, gotejando em chuvas de dias cinzas. 
Sabe, eu nunca quis fazer essa analogia, sempre me soava muito infantil, muito grandiosa (e as minúcias sempre me foram mais bem vindas que as extremidades - até agora), mas eu não consigo pensar em outra figura que conte mais sobre a tua pessoa. 
Sol. Tu és um enorme e brilhante sol invadindo a minha janela e me obrigando a abrir os olhos, as vezes lento, as vezes bruto, e sempre aqui, me tirando dessas cobertas mofadas, tentando jogar alguma espécie de energia sobre o meu corpo gélido. 
Tão claro o meu incômodo, não vês? Tu colocas sentimentos confortáveis na minha mão pra depois tirá-los, e ouso dizer que sempre com o intento de me fazer entender qualquer coisa sobre o teu mundo, sobre como as cartas funcionam na vida que dizes real. Sempre foste real. Sempre pulsaste no meu rosto em cores vivas, com a tua grandiosidade despretensiosa. Sempre me tiraste dos meus domínios. Céus, eu nem sequer consigo mais me ater somente aos detalhes, unicamente á beleza dos cantos que sempre me preencheu, porque tu me apresentaste uma beleza muito maior, que antes de ti eu não acreditava um mínimo. Não são só pequenas conversas, olhares, pulsar do teu corpo no meu, tua boca teu dente teu nariz encostado milimetricamente em mim. Não é só o vento no rosto de madrugada, as mão que se tocam tão ternas, a lua que uma noite sorriu e me disseste - foi pra ti, eu pedi. Não. Não são só veias incutidas em pequenos esconderijos. É maior que tudo isso, é um sentimento tão grandioso, que abrange tanto de mim, é um amor tão absurdo, um amor que eu poderia comparar ao mar, ao céu, as estrelas e a tudo de mais clichê e grandioso que eu sempre odiei e sempre achei uma grande mentira, uma falácia descarada. Um amor que eu poderia comparar ao sol. O sol tal como és, que me faz abrir as pálpebras dos meu quarto, e as cortinas dos meus olhos.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Não me cegue, Liz

A sandália entre os meus dedos me lembra a Liz. Liz largou os cigarros? Liz largou o café? Liz não presta mais atenção nos detalhes? Eu me pergunto por onde anda a Liz, e seu cabelo, e suas ondas, suas interferências sob a pele e sob a íris sempre brilhante, sempre iluminada. Nunca mais a vi, nunca mais ela me questionou, nem se questionou e nem riu de qualquer besteira. Nunca mais seu rastro na janela do bar, a tarde, debaixo de uma chuva que nunca cessa. Nunca mais vi seu vestido florido rodar. Meu deus, eu não consigo mais achar a leveza do mundo, toda incutida nos braços da Liz. Ela desapareceu, senhor. Eu só a sinto em lembranças. Nem sequer um telefonema, me perguntando se ainda penso sobre coisas mortas e tristes, se ainda vejo risco em tudo que toco. Nada mais. Liz me deixou num vazio no qual não há contraposições. E olho pro rosto de tanta gente, ainda os riscos, nada leves. Nada é leve. Os rostos são cheios de vigas contorcidas. Todos os rostos procuram a Liz e eu procuro a Liz em todos os rostos.

Sabe, eu continuo aqui. Não quero tornar esse mundo um fardo, eu juro. Mas o cinza desperta tanta coisa não dita. Eu me engasgo, eu me nego, eu me escondo por debaixo de saias outras. Todas cinzas. Eu posso dizer que eu convivo bem com o cinza, Liz. Eu posso dizer que tuas heranças já não queimam no meu peito. Mas esse é o momento que mais dói. O momento em que me pego sem vida alguma, sem flor nenhuma plantada na calçada, sem movimento algum debaixo dos meus calçados. Detesto te dizer que sem ti tudo é neblina, mesmo que a neblina seja a cor dos meus olhos. 

Tu te revoltavas, lembra, Liz? Teimava em dizer que eu escondia coisa a mais debaixo dessa carcaça de cachorro morto. Até me fazia rir dela, lembra, Liz?  Teimava em me deixar esperançoso, teimava em me fazer acreditar em verdes e azuis. Não sei ainda quem era mais tolo, eu, você, esse mundo que nos abriga, esse espectro de mistério que eu faço questão de manter sobre todas as coisas e sobre ti. Mas sinto falta da tua risada, aquela que ecoava, sol, chaleira, som estridente e confortador, alegre e claro. Não há mistério, só há calor na tua existência.

Sabe, talvez eu tenha te visto cruzando a minha rua, uma vez. Mas eu não falei contigo, eu não soltei um ruído sequer, não queria te atrapalhar, eu não merecia, tu não precisavas. Talvez estivesses iluminando outras cabeças ou talvez a tua própria cabeça estivesse coberta de cinza. Eu não queria correr o risco. Eu não queria correr o risco porque Liz é o único risco de luz que ainda habita às minhas vistas. E ter a certeza de perdê-la seria ficar cego. Eu fico, Liz, com a meia-luz de ter em dúvida. Fico com a espera de que tu mesma apareças na minha porta ou no meu sonho me dizendo que a vida é linda e que ficar cego ainda não é o melhor caminho, me contando que continuas a ser a Liz que deixa rastros de luz permanentes espalhados em cegueiras alheias e na minha própria cegueira.