Sabe, eu continuo aqui. Não quero tornar esse mundo um fardo, eu juro. Mas o cinza desperta tanta coisa não dita. Eu me engasgo, eu me nego, eu me escondo por debaixo de saias outras. Todas cinzas. Eu posso dizer que eu convivo bem com o cinza, Liz. Eu posso dizer que tuas heranças já não queimam no meu peito. Mas esse é o momento que mais dói. O momento em que me pego sem vida alguma, sem flor nenhuma plantada na calçada, sem movimento algum debaixo dos meus calçados. Detesto te dizer que sem ti tudo é neblina, mesmo que a neblina seja a cor dos meus olhos.
Tu te revoltavas, lembra, Liz? Teimava em dizer que eu escondia coisa a mais debaixo dessa carcaça de cachorro morto. Até me fazia rir dela, lembra, Liz? Teimava em me deixar esperançoso, teimava em me fazer acreditar em verdes e azuis. Não sei ainda quem era mais tolo, eu, você, esse mundo que nos abriga, esse espectro de mistério que eu faço questão de manter sobre todas as coisas e sobre ti. Mas sinto falta da tua risada, aquela que ecoava, sol, chaleira, som estridente e confortador, alegre e claro. Não há mistério, só há calor na tua existência.
Sabe, talvez eu tenha te visto cruzando a minha rua, uma vez. Mas eu não falei contigo, eu não soltei um ruído sequer, não queria te atrapalhar, eu não merecia, tu não precisavas. Talvez estivesses iluminando outras cabeças ou talvez a tua própria cabeça estivesse coberta de cinza. Eu não queria correr o risco. Eu não queria correr o risco porque Liz é o único risco de luz que ainda habita às minhas vistas. E ter a certeza de perdê-la seria ficar cego. Eu fico, Liz, com a meia-luz de ter em dúvida. Fico com a espera de que tu mesma apareças na minha porta ou no meu sonho me dizendo que a vida é linda e que ficar cego ainda não é o melhor caminho, me contando que continuas a ser a Liz que deixa rastros de luz permanentes espalhados em cegueiras alheias e na minha própria cegueira.
Nenhum comentário:
Postar um comentário