segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Elogio da ausência

Entre algumas nuances, tu encostas a tua mão na minha. O ponto inicial dessa vez vem de ti, e, ainda assim, a tua ação perde a força antes de me atingir. O teu agir sobrepõe a minha pele, a minha superfície a qual mais facilmente entrego, mas a tua não-ação chega muito mais intensa, abrindo caminho em cada camada onde rasteja copiosamente, afim de adensar-se no que encontra e ali decretar:

A falta é freqüência, é o elogio da ausência.

É isso que proclamas, sem língua; a tua latente falta, a tua insuficiência que reboca as minhas verdades com concreto. Concretizas a mão que não se estende e os dedos que não se entrelaçam ao mesmo tempo em que amoleces qualquer coisa que ameace ganhar forma às tuas vistas. Rasgas papéis, destróis esculturas e jardins que cresceram por ti, bem na minha frente. Fixas o ar do descompromisso. Desfixas. Asfixias.

Tuas mãos estão no meu pescoço apenas pra me impedir de te gritar, só porque fazes questão de patentear o meu silencio.

Que seja teu o meu silencio.

Que seja teu o repouso amargo da minha língua.


Seja tua e completamente tua a minha contenção, que me contenta em ali desaparecer, sem ser tua.