segunda-feira, 28 de julho de 2014

Meio silêncio

O meu raciocínio é lento, cada vez mais limitado, vagaroso, delineado em margens bem definidas. É engraçado como a tecnologia esmagou o nosso cérebro - o teclado dilacerou os meus dedos. Agora tenho dedos e palavras pela metade. Penso as vezes que ando até sentindo pela metade. Será que também te ouço pela metade? Queria sentir que vale a pena se fazer inteiro, todo articulado, todo desmembrado e ainda assim todo, não oco, maciço. Não ouço, mastigo. E engulo. Nem parece mais tão difícil engolir tanta merda. Minha garganta se tornou lisa, ela sabe deglutir. Eu a ensinei, admito. Mas o que mais eu poderia fazer com a minha cabeça idealista? O ideal se conforma e as idéias sentam de cócoras, ridículas, completamente ocas. Porque bebedeira nenhuma as preenche. Nem cigarro. Nem toques semi-conhecidos. As idéias mijam em cima dos ideais e agora meus dedos, cerrados, já não escrevem: coçam os olhos, amassam o cabelo, cutucam as unhas. Nem sequer apontam, pois não têm mais em que opinar. O que os meus dedos dizem? O que os meus olhos dizem? O que a minha língua diz? Nada. Os meus sentidos, de mãos dadas, se recolhem. É hora de entrar, colocar as cadeiras de plástico pra dentro e observar da cortina entreaberta o movimento. Esse movimento, tão rasteiro, que é grama baixa nascendo no asfalto, me entristece. Não sou mais movimento, não sou mais vida que nasce duramente no asfalto. Sou vida que deita e se adensa ao asfalto. O asfalto meia-boca sobre a meia-luz da cidade, que é metade céu, metade lixo, e que calada, já não diz nada, além desse opaco e inebriado meio silêncio.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Elogio da ausência

Entre algumas nuances, tu encostas a tua mão na minha. O ponto inicial dessa vez vem de ti, e, ainda assim, a tua ação perde a força antes de me atingir. O teu agir sobrepõe a minha pele, a minha superfície a qual mais facilmente entrego, mas a tua não-ação chega muito mais intensa, abrindo caminho em cada camada onde rasteja copiosamente, afim de adensar-se no que encontra e ali decretar:

A falta é freqüência, é o elogio da ausência.

É isso que proclamas, sem língua; a tua latente falta, a tua insuficiência que reboca as minhas verdades com concreto. Concretizas a mão que não se estende e os dedos que não se entrelaçam ao mesmo tempo em que amoleces qualquer coisa que ameace ganhar forma às tuas vistas. Rasgas papéis, destróis esculturas e jardins que cresceram por ti, bem na minha frente. Fixas o ar do descompromisso. Desfixas. Asfixias.

Tuas mãos estão no meu pescoço apenas pra me impedir de te gritar, só porque fazes questão de patentear o meu silencio.

Que seja teu o meu silencio.

Que seja teu o repouso amargo da minha língua.


Seja tua e completamente tua a minha contenção, que me contenta em ali desaparecer, sem ser tua.