quinta-feira, 8 de novembro de 2012
Liz
quinta-feira, 20 de setembro de 2012
segunda-feira, 17 de setembro de 2012
Papel manteiga
Sempre dói mais onde menos deveria
E em extensões, achar seu controle
Abarcar com os olhos o que os olhos não vêem
E por mesmo não ver, tornar a terra pouca
Fazer da pedra macia areia
Em que acolho, recolho, descanso os pés
E me digo forte
Não por sustentar grandes problemas
Mas por maquinar grandes artifícios
Para deixá-los de lado, e esconde-los
Por debaixo dessas gotas poucas
Sobre a mesa de madeira
Que não secam, ficam ali, estáticas
Perduram e me fitam
Me encaram me lembrando
Que para elas, justo à elas
Não consigo por panos sobre, nem ao redor
Conservo-as ali como quem precisa
De um rádio sintonizado num fim de tarde
Ou de um cão aconchegado no tapete
Com uma presença que mais parece ausência
De tão estável e duradoura e eterna e confortável
Por mais que as extremidades machuquem
Mais do que o que escondo por ser imenso e torno opaco
Porque reforço o traço só no que me é banal.
quinta-feira, 6 de setembro de 2012
Parapeito II
Te digo que tenho força o bastante para abrir essa maçaneta e sem pensar duas vezes por meu corpo por trás dessa porta por trás de onde ainda me protejo mas a força maior que faço é a de mantê-la fechada de manter-me aquecida e segura reduzida a esse pedaço de terra que agarrei e pintei com a cor de tudo o mais que lembra à essa cadeira à essa mochila à essa calça a esse céu a esse tudo em que não enxergue implícitos e assustadores os teus olhos marrons como que me induzindo a abrir essa porta e dizendo vem não vai doer vem toma banho nessas lembranças que deixei para ti que te alivia que te torna útil que te faz sentir viva vem e me olha e olha essas coisas que todos menos tu deixaram para trás mas não eu me recuso eu não sou tua jarra de água suscetível a um volume qualquer que queiras eu me abstenho até de olhar para essa porta de madeira em que as minhas mãos aportam porque ela é marrom e nela vejo a minha febre nessas tuas pupilas grandes e eu preciso fugir e olhar para algo mais azul e branco e cinza que seja mas deixar o marrom que me persegue eu tento eu acho eu bato a porta e tranco e engulo a chave e vou apressada para o parapeito da janela lá tenho paz lá tenho silencio lá olho para o azul e espero espero espero de novo de outro dou três passos para trás estou errada encurralada por duas enormes e persistentes manchas de cor na minha cabeça levo as pernas ao chão me acolho me invento em mim fecho os olhos cubro a tez e tento tento tento pensar em qualquer coisa que não seja em cores não consigo devolvo meus passos para as lajotas e estou finalmente ali meneando para fora e livre e quase e então eu pinto
Tudo
De
Vermelho.
Parapeito
Mas se às vezes te descubro alheio e acho no teu silêncio a falta que habita o meu, dou três passos atrás e vagueio sobre o cômodo de estar errada, porque no teu silencio não há nada submerso além da dimensão da palavra que o define: si-len-cio, e a janela ameaça fechar-se.
quinta-feira, 30 de agosto de 2012
Sem rosto
Não sabia dizer o que era igual, mas sabia o que era diferente. Aquele homem apressado vestindo terno e gravata em meio a tantos outros homens vestindo terno e gravata – a qual a cor variava de vermelho à pastel algumas vezes, devo admitir – confundindo-se entre as passageiras impressões de eternidade de uma cidade qualquer. Passava tão despercebido que sequer notaram o incabível. O homem não tinha rosto, nem carne qualquer que o sustentasse. Simplesmente um vazio sob o chapéu aveludado. Antes que o pudesse enxergar checando horas para seu compromisso pontual, a ausência de massa corpórea travou meus olhos. Não dispunha de rosto, tampouco de corpo, mas andava (flutuava? Esvaia?) apressadamente, com uma aura concentrada da qual se percebia sem mesmo formar imagens. Bom, se percebia-se aura, ao menos pensava, ao menos sentia. E se tal aura era qual o vermelho nos lábios de uma neve, deveria o homem ser completo sentimento, completa coleção das coisas que concretistas diriam não existir, do intangível tangível por dentro, explicito individual porque é forte e imperativo. E que nos move a pensar, pensar, lembrar. As lembranças desse homem caíram, junto ao seu rosto, junto ao seu corpo, quando sentiu que elas o estavam carregando, e não contrário. Tornaram-se tão pesadas e presentes que se exteriorizaram, sendo completamente espalhadas por esses cantos os quais passou. Ele não era sentimento, mas a sua machucada ausência.
E todos os toques e cheiros e sons e imagens e pessoas que o passaram estavam por ele estáticas, eternizadas no momento que ocorreram. Não queria lembrar – e nem precisava disso. Não queria sentir de novo num quase desespero o que já havia deixado marcas. Queria, por contrário, o agora. O vento batendo no rosto aparentemente inexistente e que no exato momento que o fazia sentir-se bem, ficava para trás. Por isso aquela aura incompreendida e notável; Não era um acumulado de sentimentos, era sentimento imediato, que acabara de moldar-se, que cheirava a papel recém-fabricado. O resto era antigo, o resto era empoeirado, o resto fazia mal, e doía. Doía tanto que ele cansou-se de doer, e foi deixando suas lembranças viverem por si próprias, na cabeça de quem as quisesse, num chão e num céu que não as chorasse; Expurgou-as por completo do seu corpo para viver o frescor de sentir-se livre de corpo e rosto que continham terríveis buracos sem fundo. A pele era o momento, e por isso, parecia não existir. Mas na verdade era nova pele a cada segundo.
Adega
Eu bebo o teu vinho porque não tenho mais o que beber. O uísque e a cerveja esquentaram sobre a mesa da varanda da casa de alguém. Tomaram-me os vícios, saíram para comprar os meus cigarros e nunca mais voltaram.
Daqui, de onde não enxergo mais teu apartamento, eu bebo o teu vinho. Descontrolado bebo, dissimulado bebo. Reviro fotos, reviro cartas, concretizo cheiros, concretizo imagens, mas tudo o que a realidade abarca são paredes brancas. É tudo o que realmente vejo. Acho até que essa é uma estratégia dos que projetaram esse lugar. Posso imaginá-los tão contritos e inovadores sentados em beiradas de cadeiras de madeira recém compradas em volta de uma mesa redonda discutindo o modo de fazer com que esses loucos visualizassem belas imagens agradáveis, estáticas. Uma parede branca seria ideal para pintar de azul, ou de preto. Mas eu acabo pintando de vinho, o teu vinho, e brindando-o com o azar ou a angústia.
Não me lembro ao certo quem esteve por trás da minha vinda para esse inferno vestindo tranqüilidade. Quem sabe tenhas sido tu a responsável. Ou poderias estar no mar velejando com alguém, velejando além de mim e do meu estúpido problema hereditário, como dizias.
Sinto-me culpado, eu diria, pelo plano tão falho, pelas expectativas rasas, por desapontá-las. Enquanto me isolam e me estudam e me mantêm seguro de sujeiras quaisquer presas sob os meus lábios, eu continuo a sentir o amargo e saboroso gosto do teu vinho, porque o impregnaste em cada parte do meu corpo.