quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Liz



Eu não sei bem, Liz, eu quero gritar uma dor que não é só minha, uma dor que eu vejo nos prédios mal-pintados, nos vidros trincados, nas pichações mal feitas, nos copos plásticos jogados amassados bem no meio da rua onde carros com a lataria também amassada passam sem parar sem nunca parar ou perceber esse cão que deve estar morto há dois dias ou mais e observa incólume ao seu corpo sendo atravessado milhares e milhares de vezes como esse teu olhar marrom atravessa o meu corpo, Liz. Eu gosto, gosto muito, mas me deixa com uma espécie de tristeza, me deixa meio morto, como o cão olhando pro que restou de si e tendo a certeza de algo que sempre desconfiou. Talvez aquilo tudo não fosse pra ele, talvez ele devesse estar ali mesmo. Liz, eu me sinto assim, eu me olho de um plano exterior e inalcançável de onde enxergo todo o mal e as flores de Baudelaire mas me toco tanto por dentro que me sinto intocável e imóvel e por isso deixo que caiam sobre mim a dor desses objetos animais pessoas céus quebrados e me deixo atravessar. Dos incômodos, talvez esse seja o menor.

Liz olhava sem entender muito bem, não sabia se oferecia um chá ou um médico. Na dúvida, escolheu um café.

Eu busco num infinito que não compreendo direito o que me dizes. Mas busco. Quer um café? Quero. Não quero mais falar sobre isso. Por quê? Porque tentar te explicar cansa, Liz, mas repetir teu nome não. Ela riu e conseguiu até levá-lo junto. Não sei o que deu na cabeça da minha mãe, não gosto desse nome. Acho que ela era hippie e estava num desses encontros em prol da paz e do amor livre. Então foi um amor muito bonito. Era uma péssima tentativa de aproximação, ele confessou a si e abaixou a cabeça. Nem tanto, não conheço meu pai. Antes que ele hesitasse em se desculpar, Liz sorriu. 

O que foi? Nada. Fala. É bobagem. Nada é pior que a minha reflexão desinteressante sobre o cão morto. Riso. Certo, é que eu vi através dessa janela embaçada uma velhinha cheia de rugas, eram muitas mesmo, uma baita cara de histórias. Mas ela estava toda maquiada, vestindo talvez o seu vestido mais bonito de quando era jovem, uns saltos altos vermelhos da sua filha e limpando a sujeira do seu gato. Deveria estar esperando algum elogio, mas ganhou uma gargalhada debochada do chinês que está vendendo mamões do outro lado da rua. Não sei, acho que a velhinha estava indo comprar os tais mamões pro intestino, tu sabes como é, esses problemas da velhice, e acabou que o gato fez o que ela deveria fazer. E Liz riu de novo, linda, simples, leve, o contraponto dessa densidade desnecessária que eu carregava. Se eu fizesse um exercício proposto implicitamente pela Liz naquele momento, eu diria que ela soa tão sincera quanto uma gota de água que evapora sobre a incidência dos raios solares, ou quanto o barulho engraçado que a chaleira faz, entregue à inevitabilidade, à condição de sua existência. Eu enxergo Liz imitando essa chaleira e essa gota de água evaporando e morrendo de rir disso. Eu seria o sol, emitindo raios solares, evaporando Liz rapidamente, enquanto ela some fazendo um som engraçado de chaleira no meio da calçada. Ah, Liz, és tão bonita que eu nem preciso mais desse meu café morno.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Incômodo

Frio                             Calor
Tanto                           Tanto
Faz                              Fez

                Fiz
              Tanto
              Doer

        E dormir não fui. 

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Papel manteiga

Sempre dói mais onde menos deveria
E em extensões, achar seu controle
Abarcar com os olhos o que os olhos não vêem
E por mesmo não ver, tornar a terra pouca
Fazer da pedra macia areia
Em que acolho, recolho, descanso os pés
E me digo forte
Não por sustentar grandes problemas
Mas por maquinar grandes artifícios
Para deixá-los de lado, e esconde-los
Por debaixo dessas gotas poucas
Sobre a mesa de madeira
Que não secam, ficam ali, estáticas
Perduram e me fitam
Me encaram me lembrando
Que para elas, justo à elas
Não consigo por panos sobre, nem ao redor
Conservo-as ali como quem precisa
De um rádio sintonizado num fim de tarde
Ou de um cão aconchegado no tapete
Com uma presença que mais parece ausência
De tão estável e duradoura e eterna e confortável
Por mais que as extremidades machuquem
Mais do que o que escondo por ser imenso e torno opaco
Porque reforço o traço só no que me é banal.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Parapeito II

Te digo que tenho força o bastante para abrir essa maçaneta e sem pensar duas vezes por meu corpo por trás dessa porta por trás de onde ainda me protejo mas a força maior que faço é a de mantê-la fechada de manter-me aquecida e segura reduzida a esse pedaço de terra que agarrei e pintei com a cor de tudo o mais que lembra à essa cadeira à essa mochila à essa calça a esse céu a esse tudo em que não enxergue implícitos e assustadores os teus olhos marrons como que me induzindo a abrir essa porta e dizendo vem não vai doer vem toma banho nessas lembranças que deixei para ti que te alivia que te torna útil que te faz sentir viva vem e me olha e olha essas coisas que todos menos tu deixaram para trás mas não eu me recuso eu não sou tua jarra de água suscetível a um volume qualquer que queiras eu me abstenho até de olhar para essa porta de madeira em que as minhas mãos aportam porque ela é marrom e nela vejo a minha febre nessas tuas pupilas grandes e eu preciso fugir e olhar para algo mais azul e branco e cinza que seja mas deixar o marrom que me persegue eu tento eu acho eu bato a porta e tranco e engulo a chave e vou apressada para o parapeito da janela lá tenho paz lá tenho silencio lá olho para o azul e espero espero espero de novo de outro dou três passos para trás estou errada encurralada por duas enormes e persistentes manchas de cor na minha cabeça levo as pernas ao chão me acolho me invento em mim fecho os olhos cubro a tez e tento tento tento pensar em qualquer coisa que não seja em cores não consigo devolvo meus passos para as lajotas e estou finalmente ali meneando para fora e livre e quase e então eu pinto

Tudo

De

Vermelho.

Parapeito

Mas se às vezes te descubro alheio e acho no teu silêncio a falta que habita o meu, dou três passos atrás e vagueio sobre o cômodo de estar errada, porque no teu silencio não há nada submerso além da dimensão da palavra que o define: si-len-cio, e a janela ameaça fechar-se.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Sem rosto

Não sabia dizer o que era igual, mas sabia o que era diferente. Aquele homem apressado vestindo terno e gravata em meio a tantos outros homens vestindo terno e gravata – a qual a cor variava de vermelho à pastel algumas vezes, devo admitir – confundindo-se entre as passageiras impressões de eternidade de uma cidade qualquer. Passava tão despercebido que sequer notaram o incabível. O homem não tinha rosto, nem carne qualquer que o sustentasse. Simplesmente um vazio sob o chapéu aveludado. Antes que o pudesse enxergar checando horas para seu compromisso pontual, a ausência de massa corpórea travou meus olhos. Não dispunha de rosto, tampouco de corpo, mas andava (flutuava? Esvaia?) apressadamente, com uma aura concentrada da qual se percebia sem mesmo formar imagens. Bom, se percebia-se aura, ao menos pensava, ao menos sentia. E se tal aura era qual o vermelho nos lábios de uma neve, deveria o homem ser completo sentimento, completa coleção das coisas que concretistas diriam não existir, do intangível tangível por dentro, explicito individual porque é forte e imperativo. E que nos move a pensar, pensar, lembrar. As lembranças desse homem caíram, junto ao seu rosto, junto ao seu corpo, quando sentiu que elas o estavam carregando, e não contrário. Tornaram-se tão pesadas e presentes que se exteriorizaram, sendo completamente espalhadas por esses cantos os quais passou. Ele não era sentimento, mas a sua machucada ausência.

E todos os toques e cheiros e sons e imagens e pessoas que o passaram estavam por ele estáticas, eternizadas no momento que ocorreram. Não queria lembrar – e nem precisava disso. Não queria sentir de novo num quase desespero o que já havia deixado marcas. Queria, por contrário, o agora. O vento batendo no rosto aparentemente inexistente e que no exato momento que o fazia sentir-se bem, ficava para trás. Por isso aquela aura incompreendida e notável; Não era um acumulado de sentimentos, era sentimento imediato, que acabara de moldar-se, que cheirava a papel recém-fabricado. O resto era antigo, o resto era empoeirado, o resto fazia mal, e doía. Doía tanto que ele cansou-se de doer, e foi deixando suas lembranças viverem por si próprias, na cabeça de quem as quisesse, num chão e num céu que não as chorasse; Expurgou-as por completo do seu corpo para viver o frescor de sentir-se livre de corpo e rosto que continham terríveis buracos sem fundo. A pele era o momento, e por isso, parecia não existir. Mas na verdade era nova pele a cada segundo.

Adega

Eu bebo o teu vinho porque não tenho mais o que beber. O uísque e a cerveja esquentaram sobre a mesa da varanda da casa de alguém. Tomaram-me os vícios, saíram para comprar os meus cigarros e nunca mais voltaram.

Daqui, de onde não enxergo mais teu apartamento, eu bebo o teu vinho. Descontrolado bebo, dissimulado bebo. Reviro fotos, reviro cartas, concretizo cheiros, concretizo imagens, mas tudo o que a realidade abarca são paredes brancas. É tudo o que realmente vejo. Acho até que essa é uma estratégia dos que projetaram esse lugar. Posso imaginá-los tão contritos e inovadores sentados em beiradas de cadeiras de madeira recém compradas em volta de uma mesa redonda discutindo o modo de fazer com que esses loucos visualizassem belas imagens agradáveis, estáticas. Uma parede branca seria ideal para pintar de azul, ou de preto. Mas eu acabo pintando de vinho, o teu vinho, e brindando-o com o azar ou a angústia.

Não me lembro ao certo quem esteve por trás da minha vinda para esse inferno vestindo tranqüilidade. Quem sabe tenhas sido tu a responsável. Ou poderias estar no mar velejando com alguém, velejando além de mim e do meu estúpido problema hereditário, como dizias.

Sinto-me culpado, eu diria, pelo plano tão falho, pelas expectativas rasas, por desapontá-las. Enquanto me isolam e me estudam e me mantêm seguro de sujeiras quaisquer presas sob os meus lábios, eu continuo a sentir o amargo e saboroso gosto do teu vinho, porque o impregnaste em cada parte do meu corpo.