Eu bebo o teu vinho porque não tenho mais o que beber. O uísque e a cerveja esquentaram sobre a mesa da varanda da casa de alguém. Tomaram-me os vícios, saíram para comprar os meus cigarros e nunca mais voltaram.
Daqui, de onde não enxergo mais teu apartamento, eu bebo o teu vinho. Descontrolado bebo, dissimulado bebo. Reviro fotos, reviro cartas, concretizo cheiros, concretizo imagens, mas tudo o que a realidade abarca são paredes brancas. É tudo o que realmente vejo. Acho até que essa é uma estratégia dos que projetaram esse lugar. Posso imaginá-los tão contritos e inovadores sentados em beiradas de cadeiras de madeira recém compradas em volta de uma mesa redonda discutindo o modo de fazer com que esses loucos visualizassem belas imagens agradáveis, estáticas. Uma parede branca seria ideal para pintar de azul, ou de preto. Mas eu acabo pintando de vinho, o teu vinho, e brindando-o com o azar ou a angústia.
Não me lembro ao certo quem esteve por trás da minha vinda para esse inferno vestindo tranqüilidade. Quem sabe tenhas sido tu a responsável. Ou poderias estar no mar velejando com alguém, velejando além de mim e do meu estúpido problema hereditário, como dizias.
Sinto-me culpado, eu diria, pelo plano tão falho, pelas expectativas rasas, por desapontá-las. Enquanto me isolam e me estudam e me mantêm seguro de sujeiras quaisquer presas sob os meus lábios, eu continuo a sentir o amargo e saboroso gosto do teu vinho, porque o impregnaste em cada parte do meu corpo.
"Amargo e saboroso gosto do teu vinho"? Deve ser um Cabernet Souvignon ou um Merlot, por certo: kkkkkkkkkk..........ah, não importa! O que interessa é termos nos bons momentos, como sorver nem que seja o cheiro ou o gosto da pele da pessoa amada(o).
ResponderExcluirTá ficando exímia, heim Maíra!? Continue escrevendo. Almejo ver vc nos píncaros da glória!