quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Sem rosto

Não sabia dizer o que era igual, mas sabia o que era diferente. Aquele homem apressado vestindo terno e gravata em meio a tantos outros homens vestindo terno e gravata – a qual a cor variava de vermelho à pastel algumas vezes, devo admitir – confundindo-se entre as passageiras impressões de eternidade de uma cidade qualquer. Passava tão despercebido que sequer notaram o incabível. O homem não tinha rosto, nem carne qualquer que o sustentasse. Simplesmente um vazio sob o chapéu aveludado. Antes que o pudesse enxergar checando horas para seu compromisso pontual, a ausência de massa corpórea travou meus olhos. Não dispunha de rosto, tampouco de corpo, mas andava (flutuava? Esvaia?) apressadamente, com uma aura concentrada da qual se percebia sem mesmo formar imagens. Bom, se percebia-se aura, ao menos pensava, ao menos sentia. E se tal aura era qual o vermelho nos lábios de uma neve, deveria o homem ser completo sentimento, completa coleção das coisas que concretistas diriam não existir, do intangível tangível por dentro, explicito individual porque é forte e imperativo. E que nos move a pensar, pensar, lembrar. As lembranças desse homem caíram, junto ao seu rosto, junto ao seu corpo, quando sentiu que elas o estavam carregando, e não contrário. Tornaram-se tão pesadas e presentes que se exteriorizaram, sendo completamente espalhadas por esses cantos os quais passou. Ele não era sentimento, mas a sua machucada ausência.

E todos os toques e cheiros e sons e imagens e pessoas que o passaram estavam por ele estáticas, eternizadas no momento que ocorreram. Não queria lembrar – e nem precisava disso. Não queria sentir de novo num quase desespero o que já havia deixado marcas. Queria, por contrário, o agora. O vento batendo no rosto aparentemente inexistente e que no exato momento que o fazia sentir-se bem, ficava para trás. Por isso aquela aura incompreendida e notável; Não era um acumulado de sentimentos, era sentimento imediato, que acabara de moldar-se, que cheirava a papel recém-fabricado. O resto era antigo, o resto era empoeirado, o resto fazia mal, e doía. Doía tanto que ele cansou-se de doer, e foi deixando suas lembranças viverem por si próprias, na cabeça de quem as quisesse, num chão e num céu que não as chorasse; Expurgou-as por completo do seu corpo para viver o frescor de sentir-se livre de corpo e rosto que continham terríveis buracos sem fundo. A pele era o momento, e por isso, parecia não existir. Mas na verdade era nova pele a cada segundo.

Adega

Eu bebo o teu vinho porque não tenho mais o que beber. O uísque e a cerveja esquentaram sobre a mesa da varanda da casa de alguém. Tomaram-me os vícios, saíram para comprar os meus cigarros e nunca mais voltaram.

Daqui, de onde não enxergo mais teu apartamento, eu bebo o teu vinho. Descontrolado bebo, dissimulado bebo. Reviro fotos, reviro cartas, concretizo cheiros, concretizo imagens, mas tudo o que a realidade abarca são paredes brancas. É tudo o que realmente vejo. Acho até que essa é uma estratégia dos que projetaram esse lugar. Posso imaginá-los tão contritos e inovadores sentados em beiradas de cadeiras de madeira recém compradas em volta de uma mesa redonda discutindo o modo de fazer com que esses loucos visualizassem belas imagens agradáveis, estáticas. Uma parede branca seria ideal para pintar de azul, ou de preto. Mas eu acabo pintando de vinho, o teu vinho, e brindando-o com o azar ou a angústia.

Não me lembro ao certo quem esteve por trás da minha vinda para esse inferno vestindo tranqüilidade. Quem sabe tenhas sido tu a responsável. Ou poderias estar no mar velejando com alguém, velejando além de mim e do meu estúpido problema hereditário, como dizias.

Sinto-me culpado, eu diria, pelo plano tão falho, pelas expectativas rasas, por desapontá-las. Enquanto me isolam e me estudam e me mantêm seguro de sujeiras quaisquer presas sob os meus lábios, eu continuo a sentir o amargo e saboroso gosto do teu vinho, porque o impregnaste em cada parte do meu corpo.

Encomenda

O chão era mais forte que eu. Cada vez que punha meus pés no asfalto ou na lajota ou no ladrilho, rezava para que esses me impulsionassem de volta, me sustentassem mais uma vez, mais uma vez suportassem o peso invisível e morto que eu rejeitava, jogava para frente, para os lados, até que ressoassem aos meus ouvidos e apenas aos meus. Essa dor é só minha, guardo-a entre meus dedos, nas solas dos meus pés, enquanto deixo-a impregnar os meus sapatos, mantê-los presos no solo pobre das coisas que desprevenido e quase inconsciente endureço. Perguntam-me se é um estado que eu gosto. Não é, mas é condicionado, é confortável. Estou num buraco que cavaram aos moldes de mim.

Clichê

Contavam passos que davam pela própria casa, tão meninas. Tão meninas emaranhavam-se em devaneios enquanto o corpo entranhava-se ao sofá. Tão meninas selecionavam músicas que soassem como uma vista deixada para trás, nunca tirada da mente. Tão meninas escolhiam cadernos, roupas, pensamentos que sejam seus, muito seus apesar de outras quinhentas, meninas também. Tão meninas tocavam-se ou quando não o faziam esperavam pelo toque. Macio como o seu, macio como o dele. Deles. Os muitos que a elas pertencem porque não passam de seu invento. Tão meninas esperavam sempre, expostas ou caladas dentro de si. Tão meninas falhavam, pisavam em falso, escolhiam o amargo e não o doce, por um quase prazer inexplicável. Por serem meninas. Por chorarem à noite sob um céu cintilante, por rirem de macacos, por juntarem-se em confraria para aliviar-se. Tão sinceramente meninas.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Ele dizia que parecia uma despedida

Talvez isso aqui seja uma despedida. Talvez seja neste ponto que eu bato meus pés sujos de areia no nosso tapete roto e saio porta afora, de costas viradas, sem nenhum prenuncio de arquear-me na tua direção. Assim te deixo livre, com as mãos livres, deixo teu olho embaçar minha imagem, e faço com que o meu não enxergue mais a tua. Procuro um ponto fixo à minha frente e acho, um ponto fixo que me reforça e que me carrega como um pai. O mar, talvez, o ar. E dali penso em ti sereno, penso em ti risonho, penso em ti trocando sandália, trocando retrato trocando expressão trocando tapete. Mudando. Pondo o novo no lugar, e Deus, quão normal pode ser? Há o agridoce sabor de quem já tocou a tua pele nos meus dedos, de quem os manteve assim tão intensos sobre uma parte qualquer do teu corpo que se adensou à ele. E saiu, com a naturalidade de quem vive arranhando calcanhares sem motivo aparente posto que o sentir doer é o tempo di(vagando), modificando, machucando, rasgando até, mas curando, lentamente, cicatrizando. E nos teus dedos, resquícios meus povoam as pontas, que anseiam por tocar em tantas outras, misturar o que é meu e teu com o que é teu e dela formando em ti uma fina pele que te define entre lembranças de cigarros garotas filmes toques falas e me lembro de uma foi bom passou foi bonito e é, na memória que guarda as pontas dos meus dedos e os dela também, por onde quer que tenham passeado nesses últimos anos. Que bom que ela foi, que bom que foste, assim a memória é mais afeita ao que mantive no passado e abraço ao lembrar.