Escrito em 19/03/2013
Nessa chuva que fazia calos e deixava as pontas do pé de
Júlio úmidas e retraídas, ele pensava. Os sapatos secando atrás da geladeira
lhe conferiam um odor não muito agradável, mas já havia sentido aquilo ali
antes. Parecia um pouco com o que suas narinas aspiravam quando formava uma
ideia na sua cabeça e esperava, pacientemente, alguém compartilhar dela. E
nunca acontecia, nunca era como o previsto. Júlio andava por ali e dentro de si
sempre parecia que faltava algo. Externa e internamente, na verdade. O buraco
estava alí mais ou menos na direção do seu peito, corria pelo seu pescoço e
fazia notáveis marcas ao redor dos seus olhos. Olheiras, chamavam. Criava a
síntese da razão desses arroxeados bem do meio do rosto pálido, quebrando a sua
ordem facial. Cansaço, você sabe. Eu penso muito, você sabe. Pensar dói, você
sabe. Dói e desperta e esclarece (ou escurece) ainda mais. Depois rebate; ali
ao lado pessoas morrem de câncer, o próprio corpo se embriaga de células que
nascem e fazem morrer. Ali ao lado as pessoas morrem de câncer, aqui ao lado,
do meu lado. E elas estão sorrindo, e não tem motivos. Não sei, elas estão vivas,
menos do que eu e no entanto parecem mais. Então, aqui deitado, me sinto um
idiota, porque eu crio essas olheiras. Eu não sofro, eu peço por isso. Tenho
vontade de enterrar a minha cabeça no travesseiro e pedir desculpas a deus ou a
alguém por esse descontentamento. Essa era a sua melhor antítese. E logo vem a
síntese, ele espera. Mas a síntese não vem, a sua natureza é extremista, Júlio
sabia. Ou se sentia mal e confortável no buraco que cavou aos moldes de si, ou
se sentia mal por sentir-se mal e por cavar um buraco para si quando ele mesmo
tinha tudo para emergir dele. Não era uma escolha tão justa, tão difícil. As
vezes pensava que sequer era uma escolha. Deixava, por hora, o sapato secar
atrás da geladeira e a janela aberta mesmo quando chovia, essas coisas que
ninguém desconfia que definam tanto alguém como o definiam.
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