Escrito em 03/05/12
Andava batendo calcanhares no céu.
Porque ali doía mais e mais aliviava. Melhor que batê-los no chão, na estante de madeira envelhecida, ou nos rostos que de olhos âmbares e raivosos o olhavam tentando incessantes tirar-lhe das entranhas algo minimamente útil para tudo o que, desde as sandálias vinte e dois e os calcanhares intocados, lhe fora programado, encaixado, esquadrinhado.
Andava batendo calcanhares no céu.
Porque as nuvens daquele azul amorteciam a queda, o baque, absorviam o sangue da pele que, sobre o contato macio daquele mar ao contrário, mal arranhavam. Sentia o leve estalo, sentia-se despertar, mas não era preciso abrir os olhos. Ao contrário, fechava-os.
Andava batendo calcanhares no céu.
Pelo prazer de vê-los calejar a cada vez que estiveram ali. Pelo mesmo prazer de enganar-se com a textura imóvel dos pedaços de conforto pálido que já eram conhecidos seu, afinal, era mesmo conhecido pela invejável mania de pisar em pedras como se pisasse em flores.
E de bater, insistente, seus calcanhares no céu.
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