A gente corre em círculos velozes, vai se desprendendo sem pretensão de cada pedacinho de memória, que correm soltos, eu não sei pra onde diabos eles correm. E eu estremeço. Se falo de ti. Porque tu me lembras.
Essa sensação extasiante que congela cada dedinho do pé, cada microporo da pele, cada gota de saliva que explode na boca e a umidade de todas as mucosas do nosso corpo e do corpo do mundo.
Tudo se une, tudo se dissipa. E dum dentro abissal vai se esboçando as linhas, e finalmente, o texto que eu tanto busco.
Dali mesmo eu senti que não tinha mais porcaria nenhuma pra dizer pra esse mundo que me atropela, que me coloca viseira nos olhos, aqueles antolhos, inseticidas pra esse inseto endêmico que eu chamo de metafísica das pequenas e grandes coisas. Mas qual é? Que porra de besteira a metafísica frente à materialidade miserável de tudo o que a gente vê e toca hoje. E tu estás onde? O que tu tocas? O que te toca? Desculpa perguntar. Já faz tempo demais, eu sei. Mas não se deixe confundir, eu falo da tua pessoa e não da minha em relação á ti. De qualquer maneira, eu ainda penso o tanto que já passou pela tua cabeça nesses últimos anos, tanta chapação e transação, tanto gozo e tanto sentimento, tanto cigarro esvaziado de sentido porque ninguém morava naquele filtro, cigarros e mais cigarros acendidos sem propósito, sem a desculpa altruísta daquele primeiro que deitava desajeitado no teu lábio.
Vem cá, relaxa, não pretendo nada com isso, só quero que me digas, ou melhor, me respondas, pra onde foram as tuas confusões? Onde mais te confundiste? Quem mais por ti foi confundido? Desculpa perguntar, é que esse devir, essa janela que me debruço, esse caderno, esse celular e esse ventilador, os compromissos e a rotina e a risada alta estalando o ouvido, tudo, absolutamente tudo ultrapassou a tua memoria que ainda hoje quase cai pelo ralo, que nem aquele bolo de cabelo que com certeza tiras do teu banheiro. Quem deixa sujeira no seu espaço? Eu. Eu peguei e eu não sei porque. Eu não sei o que eu penso mas eu sei que bem de dentro e na ponta dos meus dedos toda vez que eu escrevo: estás aqui. Valha-me Deus esse ponto existisse, valha-me Deus eu não tivesse o criado for my own protection over their affection. Over no one affection. Tudo o que tu inconcluíste passou por mim inconcluído. Em tudo que duvido, o que não toco, o que não sei e nem suspeito.
Tudo o que não tem forma: tu
Toda abstração: tu.
Se houver reflexão, se eu mesma olhar pra mim com introspecção: tu.
Tu que te esquivas, ei, eu percebo. Qualquer contato é demais, eu vejo. Quase uma repulsa. Quer seja por saberes o que provocaste ou por não fazeres a mínima ideia. Mea Culpa ou Persona Non Grata.
Mas vem cá, escuta, sei que não te interessa, mas eu tô feliz da vida, eu juro pra ti, como eu nunca estive e eu juro e juro pra ti. Eu levanto, eu como, eu enxugo os olhos assim que eu acordo bem devagar, eu prendo o cabelo antes de me molhar, ainda como hortelãs, eu produzo & penso & me indigno & argumento. Eu amo e amo muito, me sinto amada. Tu és opaco, vês? Diluído, diluível.
É só debaixo desse papel que vens, é só na escrita. E eu amo a escrita. Tu és só um simbolo, Deus e tu estão mortos, mas ainda existem em simbologia A gente faz um trato, então, preu te dissociar disso aqui. Eu te espero, um dia, sociabilíssimo, adaptadíssimo, bem formal, soltando teu despejo de dentro e me deixando em totalidade livre. Apertaríamos as mãos, sem contraposição nem nada. E então, cabeça e coração que há muito já deixaste tranquilos, ganhariam em companhia esses meus dedos, agora comprimidos, não mais feridos, completamente introduzidos na mais santa e verdadeira paz.
Nenhum comentário:
Postar um comentário