Não sabia dizer o que era igual, mas sabia o que era diferente. Aquele homem apressado vestindo terno e gravata em meio a tantos outros homens vestindo terno e gravata – a qual a cor variava de vermelho à pastel algumas vezes, devo admitir – confundindo-se entre as passageiras impressões de eternidade de uma cidade qualquer. Passava tão despercebido que sequer notaram o incabível. O homem não tinha rosto, nem carne qualquer que o sustentasse. Simplesmente um vazio sob o chapéu aveludado. Antes que o pudesse enxergar checando horas para seu compromisso pontual, a ausência de massa corpórea travou meus olhos. Não dispunha de rosto, tampouco de corpo, mas andava (flutuava? Esvaia?) apressadamente, com uma aura concentrada da qual se percebia sem mesmo formar imagens. Bom, se percebia-se aura, ao menos pensava, ao menos sentia. E se tal aura era qual o vermelho nos lábios de uma neve, deveria o homem ser completo sentimento, completa coleção das coisas que concretistas diriam não existir, do intangível tangível por dentro, explicito individual porque é forte e imperativo. E que nos move a pensar, pensar, lembrar. As lembranças desse homem caíram, junto ao seu rosto, junto ao seu corpo, quando sentiu que elas o estavam carregando, e não contrário. Tornaram-se tão pesadas e presentes que se exteriorizaram, sendo completamente espalhadas por esses cantos os quais passou. Ele não era sentimento, mas a sua machucada ausência.
E todos os toques e cheiros e sons e imagens e pessoas que o passaram estavam por ele estáticas, eternizadas no momento que ocorreram. Não queria lembrar – e nem precisava disso. Não queria sentir de novo num quase desespero o que já havia deixado marcas. Queria, por contrário, o agora. O vento batendo no rosto aparentemente inexistente e que no exato momento que o fazia sentir-se bem, ficava para trás. Por isso aquela aura incompreendida e notável; Não era um acumulado de sentimentos, era sentimento imediato, que acabara de moldar-se, que cheirava a papel recém-fabricado. O resto era antigo, o resto era empoeirado, o resto fazia mal, e doía. Doía tanto que ele cansou-se de doer, e foi deixando suas lembranças viverem por si próprias, na cabeça de quem as quisesse, num chão e num céu que não as chorasse; Expurgou-as por completo do seu corpo para viver o frescor de sentir-se livre de corpo e rosto que continham terríveis buracos sem fundo. A pele era o momento, e por isso, parecia não existir. Mas na verdade era nova pele a cada segundo.
As dores do passado deviam lhe pesar tanto, que esvaiu-se. E o que passeava nas ruas, não era um paletó e gravata vazios, mas uma pessoa de passado obtuso? Quem sabe o que se passa no âmago d'almas humanas?
ResponderExcluirVocê tem muita criatividade e é senhora na construção de metáforas incríveis.
Existem algumas correções (pequenas), no que concerne ao português/gramática, mas nada que atrapalhe a força do seu texto. Continue...continue....a prática do "escrevinhar" lhe levará a vôos cada vez mais elevados em direção à sagacidade literária e ao sucesso!
É exatamente isso, tio, que bom que o senhor entendeu, porque as vezes fico preocupada de não me fazer entender muito bem nos meus textos, tenho medo que eles só tenham sentido pra mim, que pros outros o percam.Muito obrigada e vou buscar me aprimorar não só na gramática como em todos os outros aspectos, a gente tem sempre o que aprender, eu tenho e muito! Com certeza, tio. O ato de escrever passa principalmente pelo prazer que dá na alma da gente em faze-lo, ser lido e receber elogios ou ter uma escrita de qualidade se torna mais complemento. O essencial é a escrita, que me renova sempre. Beijo!
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